Atrasado... Quem nunca?!?
Segunda, 12:40h e eu ainda nem havia chegado ao Meier! Mesmo com o músculo glúteo perfeitamente quadrado depois de uma viagem da Penha à Engenho Novo – via 622 (Penha – Saens Peña) de apenas 1:20h de duração até Del Castilho… Faltavam dez minutos para o início da primeira aula (primeiro tempo).
Careca… Esporro… Famosa sala do Maranhão (era o diretor e não o Estado!) isso tudo e mais mil coisas passavam na minha cabeça, mas… preciso voltar um pouquinho no tempo.
Sexta-feira, Seu Sergio passou nas salas avisando que a tolerância com atrasos havia se esgotado, portanto a partir da próxima segunda – feira (a segunda em questão), ele não mais ria complacente com atrasos de qualquer natureza.
Depois de muuuuuito futebol, pipa e videogame no fim de semana, eu só precisava sair um pouco mais cedo e… tranquilamente não dar sopa ao azar!
Pois bem… Cheguei ao ponto – em frente ao antigo supermercados Sendas (hoje Guanabara) na Penha - duas horas e meia antes do horário de fechamento dos portões, tempo de sobra para chegar tranquilo e, quem sabe uma partidinha de búlica, ou balizabol (posteriormente explicarei essas modalidades esportivas do CPII E.N), mas… Nesse dia entenderia duas questões básicas que nós, alunos do Pedro II, passaríamos por um bom tempo: Gratuidade nas linhas de ônibus.
O raciocínio para qualquer ser pensante é simples: Lei da gratuidade à época era para alunos da Rede Pública de Ensino. Ok! Não sendo colégio particular… a gratuidade estava assegurada, desde que uniformizado e caderneta escolar apresentada ao motorista (nesta época a entrada de passageiros – a roleta com o trocador – ficava na parte traseira do coletivo, portanto entrávamos pela porta dianteira – porta de saída de passageiros pagantes).
Não citei – propositadamente – o implorar, a súplica, a sorte… sei lá o quê, já que os motoristas e os donos das empresas de ônibus achavam que o CPII não era público, ou que ainda, por ser da esfera federal, equivocadamente não teríamos direito a gratuidade nestes.
Como o ideal não é parente do real… Todo aluno desse período suou muito para fazer valer seu direito a gratuidade nos ônibus – por precaução os pais sempre deixavam o dinheiro da passagem nos casos de negativas mais extremadas – muita portas fechadas, motoristas míopes, surdos, mudos, os que nem paravam e os exímios conhecedores das leis: - Colégio particular não pode! Alguns “legais”: - Ó mais só dessa vez!!
Ooooooouuuuu!!!! Oooooooouuuuuuu!!!!
Já era o segundo 622 (Penha – S. Pena) que passara direto do ponto para não dar carona aos alunos – inclusive este escriba que vos escreve. Mas o intervalo entre um e outro que estava me desafiando meus nervos quase de aço.
Blêin… Blêin… Blêin… Porra… Aquele blêin, que se repetiria por doze vezes, era o sino da Igreja Nossa Sra da Penha me avisando, com todo o respeito, que eu estava FODIDO!!! Sim… Doze horas em ponto!
O saldo de quatro ônibus perdidos naquela manhã me fez refletir sobre temas como o meio ambiente, a guerra santa, os conflitos na Alemanha Oriental (sim, ainda existia um muro, mas cairia logo depois), enfim… questões sobre a Terra, Água e o Ar… de tanto tempo ocioso esperando algum motorista “caridoso” que abrisse a porta dianteira.
O quinto motorista abriu!
12:10h… FUDEUUUU!!!
Esse motorista, em questão, era um cara que pilotava muito aquele amarelinho Padron-Alvorada – modelo 1986 – Mercedes-Benz, de Viação N. S. de Lourdes. O cara era o Ayrton Senna dos coletivos.
O cara, além de gente boa, sentava o pé! Ele ainda avisava que aquele era o “rápido”, pois só parava em quatro pontos até o ponto final.
Normalmente um motorista comum percorria o trajeto Penha- Meier em 1:10h – quando bem!
Ele fez em 30 minutos!!! Nunca mais me esqueci dessa corrida, digo, viagem! Tanto que eu só fui lembrar-me do atraso, já no Meier!
O cara era sinistro! Mas eu estava tão atrasado que nem esse record de tempo seria o suficiente para me salvar do atraso. Bastava piscar os olhos para imaginar aquela careca brilhando na minha frente!
Bem… 12:40 e chegando ao Meier – Igreja Sagrado Coração de Maria. Já nem sabia mais a que santo recorrer àquela altura.
Enquanto o piloto socava o acelerador no assoalho do ônibus entre as estações do Meier e Engenho de Dentro, antes do Buraco do Padre, eu relaxei! Pensei… Que se foda!!! Se me deixarem entrar… Ok! Caso não… Ok, também!! O que de pior poderia acontecer?!?!
Puuuuuuuuuuuuuuffffffffff!!!
Que porra é essa?!?!?
O pneu do ônibus furou antes dele atravessar a Barão do Bom Retiro!!!
O motorista olhou para trás, havia uns seis, ou sete passageiros e então o anúncio:
- Pessoal, o pneu furou! Vamos ter que aguardar o próximo! - disse o piloto!!
Foi a deixa para eu descer do ônibus e como um Puro sangue inglês e galopar a mil subindo a rua até o Colégio – uns dois quarteirões acima.
13:10h inacreditavelmente o portão ainda estava aberto e, sem pensar entrei esbaforido, ainda que no auge dos meus 13 anos, bem exausto física e mentalmente, quando que no Hall de entrada…
- Pssssssssiu!!!! Pssssssssssiiiiiiiiuuu!!! Meu filhoooo, vais aonde correndo assim?!?!
Inocentemente, quase gago, respondi:
Subir para para para a sala!!!
Seu Sérgio quando queria – nem sempre era assim – resolvia os problemas de uma forma muito peculiar. E nesse dia fui agraciado com uma dessas formas.
- Meu filho… Vem cá! Vem cá! Vamos tomar uma água ali! Você está todo suado, vermelho! Você está bem?! Veio correndo?!
Pensei: FUFU!
Com a mão no meu ombro, ele me conduziu à diretoria.
Pensei: Se eu for suspenso, ou expulso… Meu enterro será amanhã!
- Boa tarde, professor Maranhão?!?! Cumprimenta Seu Sergio ao bater na porta.
- Boa tarde, Sérgio! Entrem. Respondeu o diretor.
Aqueles quadros, sua mesa de madeira maciça de mogno – que parecia ter sido esculpida e talhada ali mesmo pelo marceneiro do imperador e livros! Muitos livros! O cheiro era bem característico e amadeirado. Resumindo… Cenário de filme antigo. Ah! Ainda tinha umas três cadeiras ao fundo, ao lado de uma grande estante em mogno, fora as duas que ficavam a frente de sua imponente mesa.
- Professor, o Carlos havia me pedido para conhecer o senhor e seu gabinete e então o trouxe aqui. Ele é um “profundo” admirador da história do colégio e a tradição que temos com a educação, conduta e disciplina do aluno.
- Carlos… Fique à vontade. Qualquer problema e o que precisar, a diretoria estará sempre aberta a você, tá bom?! Você quer uma água? Parece cansado!
Neguei com a cabeça aquelas perguntas, agradeci e, logo saímos eu e Seu Sergio.
Lembro ainda de um último comentário do Seu Sérgio:
- Carlos… tenho certeza que agora você conheceu a trinca de cadeiras e não vai querer repetir a experiência. Comentou um enigmático inspetor.
De forma monossilábica respondi: - Sim!
Então ele devolveu com seu tradicional tom grave de voz:
- Agora… O que é que você ainda está fazendo aqui?!?!?! SUUUUUUUUUUBAAAA!!!
Bem…
Desse dia em diante, nunca mais passaria despercebi nem pelo Seu Sérgio, nem pelo professor Maranhão. (Era, apenas, minha terceira semana de colégio) E, definitivamente, havia entendido que ele não era apenas um inspetor rígido, mas um cara sensacional que por inúmeras vezes, ainda que com fama de disciplinador, fazia questão de ajudar o aluno com este tipo de ensinamento surpreendente, que se multiplicaria ao longo da minha vida escolar durante anos e que contarei mais a frente com mais detalhes.
Obrigado pelos ensinamentos que não se limitavam às salas de aula.
Meu eterno agradecimento e admiração, Seu Sergio! Aonde quer que o senhor esteja!
Ps: Mas esta não seria minha última vez a chegar atrasado!! He he he
Ps2: E outras… e outras… he he

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